terça-feira, 4 de abril de 2023

Recordo sempre o sorriso da minha mãe

 Há sempre um quê de estranho nestes dias.

Uma mescla de angustia com memórias desconexas, mas que nos remetem para um tempo que gostariamos que não fosse passado.

Num dia 8 de Fevereiro, na sala grande da Calaçada, o meu pai confessava-me que se sentia triste. 

Era o seu dia de anos. Dentro de poucos minutos começariam a chegar os convidados para jantar. 

Não aprofundei o tema. Achei que a hora não era de pensamentos solenes - como se só a tristeza fosse solene.. que ignorante sou! - e sem pensar muito, dei-lhe um abraço e, de forma banal e imediata, ripostei que era dia de festa e que não era tempo de tristezas. 

Muitas vezes recordo este momento. E arrependo-me por não ter perguntado o que entristecia o meu pai. Mas por vezes, há apenas uma saudade que nos aperta o coração e nos tolda a visão. Nesses momentos, apenas precisamos de um empurrão. 

A minha mãe, com quem mais tarde comentei o sucedido, sendo bastante mais pragmática, encolheu os ombros e perguntou-me "triste? porquê?". Disse-lhe que não sabia, que não aprofundei, que o convidei a enganar a memória e o coração porque era dia de festa. Ao que ela me respondeu "Não ligue. O seu pai que esteja sossegado, que hoje não é dia para tristezas."

Nos dias correntes, acho graça a esta resposta. Vislumbro nelas duas facetas: primeiro uma certa impaciência para com os bloqueios das tristezas e as lamentações; por outro uma preocupação comigo. 

Tenho quase por certo que a minha mãe, ao responder, me tinha mais em mente do que qualquer possível preocupação que ocupasse o meu pai. Não porque não gostasse dele ou não se preocupasse com ele. Muito pelo contrário, como testemunhei toda a vida. Mas porque não queria que eu me preocupasse.

A minha mãe era assim: tinha a maior ternura para com todos os homens da casa. Mas tinha um espírito muito prático e tinha uma capacidade grande de avançar. Tendo, tal como o meu pai, uma vida interior bastante profunda, estou convicto que ela não sofria com estes momentos. Tinha tristezas, tinha angústias, mas era raro vê-la lamentar-se de alguma coisa. Pelo contrário, é raro alguém tê-la visto chateada. Tinha sempre boa cara e uma boa disposição permanente. Como se sentisse o dever de estar sempre bem. Bem para si e bem para os outros. Os problemas, que todos temos, que teimam sempre em chegar, resolvem-se. Mas o segredo, esse, era não parar. Não se deixar tomar por tristezas e angústias. Porque elas são perigosas; porque elas podem tomar por completo uma pessoa e toldar-lhe a visão. 

E esta postura revela sabedoria e auto-controlo: não se trata de ignorar - isso sim, seria burrice - antes há que ter consciência que problemas, tristezas e angústias existem e têm que ser resolvidos; mas que eles são apenas um capitulo, um dossier, uma pasta no arquivo que é cada pessoa. Por isso, o melhor é aceitar a sua existência e não lhes mexer nem remexer muito, até se alcançar a solução para eles, precisamente para que eles nãos nos absorvam.

Recordo sempre o sorriso da minha mãe. 

E hoje, ao deitar a pequena Isabel que já dormia, dei-lhe um beijo da testa, chamei-lhe "meu amor pequenino que o pai adora" e acrescentei "e que tem muitas saudades da sua avó".


© Arquivo MBM


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