Há sempre um quê de estranho nestes dias.
Uma mescla de angustia com memórias desconexas, mas que nos remetem para um tempo que gostariamos que não fosse passado.
Num dia 8 de Fevereiro, na sala grande da Calaçada, o meu pai confessava-me que se sentia triste.
Era o seu dia de anos. Dentro de poucos minutos começariam a chegar os convidados para jantar.
Não aprofundei o tema. Achei que a hora não era de pensamentos solenes - como se só a tristeza fosse solene.. que ignorante sou! - e sem pensar muito, dei-lhe um abraço e, de forma banal e imediata, ripostei que era dia de festa e que não era tempo de tristezas.
Muitas vezes recordo este momento. E arrependo-me por não ter perguntado o que entristecia o meu pai. Mas por vezes, há apenas uma saudade que nos aperta o coração e nos tolda a visão. Nesses momentos, apenas precisamos de um empurrão.
A minha mãe, com quem mais tarde comentei o sucedido, sendo bastante mais pragmática, encolheu os ombros e perguntou-me "triste? porquê?". Disse-lhe que não sabia, que não aprofundei, que o convidei a enganar a memória e o coração porque era dia de festa. Ao que ela me respondeu "Não ligue. O seu pai que esteja sossegado, que hoje não é dia para tristezas."
Nos dias correntes, acho graça a esta resposta. Vislumbro nelas duas facetas: primeiro uma certa impaciência para com os bloqueios das tristezas e as lamentações; por outro uma preocupação comigo.
Tenho quase por certo que a minha mãe, ao responder, me tinha mais em mente do que qualquer possível preocupação que ocupasse o meu pai. Não porque não gostasse dele ou não se preocupasse com ele. Muito pelo contrário, como testemunhei toda a vida. Mas porque não queria que eu me preocupasse.
A minha mãe era assim: tinha a maior ternura para com todos os homens da casa. Mas tinha um espírito muito prático e tinha uma capacidade grande de avançar. Tendo, tal como o meu pai, uma vida interior bastante profunda, estou convicto que ela não sofria com estes momentos. Tinha tristezas, tinha angústias, mas era raro vê-la lamentar-se de alguma coisa. Pelo contrário, é raro alguém tê-la visto chateada. Tinha sempre boa cara e uma boa disposição permanente. Como se sentisse o dever de estar sempre bem. Bem para si e bem para os outros. Os problemas, que todos temos, que teimam sempre em chegar, resolvem-se. Mas o segredo, esse, era não parar. Não se deixar tomar por tristezas e angústias. Porque elas são perigosas; porque elas podem tomar por completo uma pessoa e toldar-lhe a visão.
E esta postura revela sabedoria e auto-controlo: não se trata de ignorar - isso sim, seria burrice - antes há que ter consciência que problemas, tristezas e angústias existem e têm que ser resolvidos; mas que eles são apenas um capitulo, um dossier, uma pasta no arquivo que é cada pessoa. Por isso, o melhor é aceitar a sua existência e não lhes mexer nem remexer muito, até se alcançar a solução para eles, precisamente para que eles nãos nos absorvam.
Recordo sempre o sorriso da minha mãe.
E hoje, ao deitar a pequena Isabel que já dormia, dei-lhe um beijo da testa, chamei-lhe "meu amor pequenino que o pai adora" e acrescentei "e que tem muitas saudades da sua avó".
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