segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Voltar à casa de partida

Passaram 12 anos.

12 anos.

Muito?

Pouco?

A percepção do tempo tende a variar em função da nossa própria idade e do nosso próprio fim. Em princípio, escrevo na expectativa de que a convivência com esta ausência durará ainda alguns longos anos. Com o passar do tempo, os anos vão alargar-se, numa sequência onde cada dia que passa é um dai a mais de ausência numa vida que se queria mais longa, numa ausência que se queria mais curta.

Sem prejuízo de sabermos que o importante é aquilo que fica, constato que o que sucede a cada ano, quando o relógio percorre as horas entre as 00:00 e as 23:59 do dia 16 de Outubro, é quase sempre o mesmo; cada dia é 16 de Outubro é praticamente igual.

12 anos.

Dizem que o tempo apazigua, que o tempo consola, que o tempo perdoa, que o tempo redime.

Perdão.

O tempo, não.

O que fazemos com ele.

Se nos sentarmos a remoer a dor como quem roí uma maçã, dificilmente alcançaremos a paz. Apenas a nossa cova será maior, será como um poço cujo fundo vamos raivosamente aprofundando.

A cada 16 de Outubro – e não só; não só; nunca somente neste dia; nunca somente num dia; para quem ama e amou, a ausência nunca é sentida apenas um dia no ano – a 16 de Outubro retornamos à casa de partida.

À casa de partida.

À nossa casa de partida.

À casa onde começou a nossa pessoa, onde se guarda a nossa primeira memória.

E então dá-se um fenómeno extraordinário, onde tudo se conjuga de forma quase perfeita, onde o nosso subconsciente arruma os ficheiros da memória e cria  um trilho que começamos a percorrer como uma viagem.

O dia começa sempre da mesma maneira: como se eu estivesse deitado numa mesa de uma sala de autópsias, fria como o gelo, com o dedo do médico-legista surge colocado numa ferida aberta – e que pensávamos fechada - no nosso coração, escarafunchando, procurando saber em que zona dói mais ou se sente mais, como quem procura garantir que ainda sentimos alguma coisa.

E durante o processo recordamos imagens, recordamos momentos, recordamos cheiros, recordamos gestos e texturas – tudo enublado, como nos filmes; como naquelas películas de cinema que sempre críamos mentirosas, com jogos de luzes a fazer turvar as imagens e que, afinal, retratam fielmente o que se passa no recanto da memória que existe na nossa cabeça.

De novo voltamos a ser, por instantes, aqueles que foram pequenos e amados, aqueles que foram felizes, aqueles que asneiraram, aqueles que foram repreendidos, aqueles que tiveram conversas profundas e conversas fugazes, aqueles que riram e choram, que foram impertinentes, que interrogaram, que quiseram saber mais ou que ignoraram conselhos que o tempo brutalmente – sempre brutalmente – nos recorda nos momentos mais duros.

Durante instantes – instantes, porque na verdade são vários, tantas são as vezes que são interrompidos por um colega ou chefe que, automatizado, obedece à aceleração do nosso mundo sem pensar no resto - é a nossa vida que passa diante dos nossos olhos.

Os detalhes dessa vida parecem sempre escolhidos a dedo (será o mesmo dedo que há minutos me espicaçava o coração?) e têm sempre um elemento comum: a augusta personagem cuja ausência deste mundo Cristo decidiu datar de 16 de Outubro de 2011.

E recordamos momentos de presença e recordamos momentos de ausência: lugares onde estivemos ou onde não queríamos ter estado; e lugares onde não estivemos e gostaríamos de ter estado juntos, porque a ausência se fez para existir.

Voltamos à casa de partida.

E revivemos a nossa vida tendo por escopo um momento especialmente marcante, como esse fatal dia 16 de Outubro, que nunca termina e que nunca acabará, que se revive, completo, a cada evocação, mas que, como tudo, se aconchega na nossa vida, convivendo com o resto do que somos.

Voltamos à casa de partida.

Mas não podemos mudar nada no nosso caminho percorrido senão a nossa percepção.

E, para o bem e para o mal, ainda bem.

Quem seriamos nós se a cada instante pudéssemos mudar o passado, tomando decisões à luz do nosso presente?

E que seria do sabor da vida?

E que seria de ti, meu pai, e do amor que me tinhas e que te tenho?

Hoje, voltamos à casa de partida. E, felizmente, não mudamos nada.

Ainda bem.


Pormenor
© Arquivo MBM

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