Passaram 12 anos.
12 anos.
Muito?
Pouco?
A percepção do tempo tende a variar
em função da nossa própria idade e do nosso próprio fim. Em princípio, escrevo na
expectativa de que a convivência com esta ausência durará ainda alguns longos
anos. Com o passar do tempo, os anos vão alargar-se, numa sequência onde cada
dia que passa é um dai a mais de ausência numa vida que se queria mais longa, numa
ausência que se queria mais curta.
Sem prejuízo de sabermos que o
importante é aquilo que fica, constato que o que sucede a cada ano, quando o
relógio percorre as horas entre as 00:00 e as 23:59 do dia 16 de Outubro, é quase
sempre o mesmo; cada dia é 16 de Outubro é praticamente igual.
12 anos.
Dizem que o tempo apazigua, que o
tempo consola, que o tempo perdoa, que o tempo redime.
Perdão.
O tempo, não.
O que fazemos com ele.
Se nos sentarmos a remoer a dor
como quem roí uma maçã, dificilmente alcançaremos a paz. Apenas a nossa cova
será maior, será como um poço cujo fundo vamos raivosamente aprofundando.
A cada 16 de Outubro – e não só;
não só; nunca somente neste dia; nunca somente num dia; para quem ama e amou, a
ausência nunca é sentida apenas um dia no ano – a 16 de Outubro retornamos à
casa de partida.
À casa de partida.
À nossa casa de partida.
À casa onde começou a nossa
pessoa, onde se guarda a nossa primeira memória.
E então dá-se um fenómeno extraordinário,
onde tudo se conjuga de forma quase perfeita, onde o nosso subconsciente arruma
os ficheiros da memória e cria um trilho
que começamos a percorrer como uma viagem.
O dia começa sempre da mesma
maneira: como se eu estivesse deitado numa mesa de uma sala de autópsias, fria
como o gelo, com o dedo do médico-legista surge colocado numa ferida aberta – e
que pensávamos fechada - no nosso coração, escarafunchando, procurando saber em
que zona dói mais ou se sente mais, como quem procura garantir que ainda
sentimos alguma coisa.
E durante o processo recordamos
imagens, recordamos momentos, recordamos cheiros, recordamos gestos e texturas – tudo enublado, como nos
filmes; como naquelas películas de cinema que sempre críamos mentirosas, com jogos
de luzes a fazer turvar as imagens e que, afinal, retratam fielmente o que se passa
no recanto da memória que existe na nossa cabeça.
De novo voltamos a ser, por
instantes, aqueles que foram pequenos e amados, aqueles que foram felizes,
aqueles que asneiraram, aqueles que foram repreendidos, aqueles que tiveram
conversas profundas e conversas fugazes, aqueles que riram e choram, que foram
impertinentes, que interrogaram, que quiseram saber mais ou que ignoraram
conselhos que o tempo brutalmente – sempre brutalmente – nos recorda nos
momentos mais duros.
Durante instantes – instantes,
porque na verdade são vários, tantas são as vezes que são interrompidos por um
colega ou chefe que, automatizado, obedece à aceleração do nosso mundo sem
pensar no resto - é a nossa vida que passa diante dos nossos olhos.
Os detalhes dessa vida parecem
sempre escolhidos a dedo (será o mesmo dedo que há minutos me espicaçava o coração?) e têm sempre um elemento comum: a augusta personagem cuja
ausência deste mundo Cristo decidiu datar de 16 de Outubro de 2011.
E recordamos momentos de presença
e recordamos momentos de ausência: lugares onde estivemos ou onde não queríamos
ter estado; e lugares onde não estivemos e gostaríamos de ter estado juntos,
porque a ausência se fez para existir.
Voltamos à casa de partida.
E revivemos a nossa vida tendo
por escopo um momento especialmente marcante, como esse fatal dia 16 de Outubro,
que nunca termina e que nunca acabará, que se revive, completo, a cada evocação,
mas que, como tudo, se aconchega na nossa vida, convivendo com o resto do que
somos.
Voltamos à casa de partida.
Mas não podemos mudar nada no nosso
caminho percorrido senão a nossa percepção.
E, para o bem e para o mal, ainda
bem.
Quem seriamos nós se a cada instante
pudéssemos mudar o passado, tomando decisões à luz do nosso presente?
E que seria do sabor da vida?
E que seria de ti, meu pai, e do amor que me tinhas e que te tenho?
Hoje, voltamos à casa de partida. E, felizmente, não mudamos nada.
Ainda bem.
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| Pormenor © Arquivo MBM |
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