domingo, 21 de setembro de 2025

O João Pereira Coutinho e eu - Parte 1

Durante vários anos segui atentamente as aparições públicas do Professor e Cronista João Pereira Coutinho. 

A história não é longa, mas também não é curta o suficiente. 

Posso, no entanto, adiantar, que tudo começou com um encontro na biblioteca do meu pai, que lera um livro chamado "Avenida Paulista", então editado pela Quasi, e decidiu partilhá-lo comigo. Muito aconteceu depois.

Durante alguns anos esse livro permaneceu na minha secretária, sendo objecto de consulta diária e ganhando a alcunha de "Manual de Instruções". 

Hoje, enquanto arrumava papéis velhos, encontrei uma folha onde cheguei a anotar alguns livros, filmes e séries sugeridos no programa "A Torto e a Direito", programa transmitido na TVI 24, nos idos 2010/2011, moderado por Constança Cunha e Sá e em que João Pereira Coutinho participava ladeado por Francisco José Viegas, cronista, escritor e editor e que seria um Secretário de Estado da Cultura en passant, e Francisco Teixeira da Mota, Advogado.

Do programa permanece um blogue - A Torto e a Direito - que pode ser consultado e (pelo menos alguns) episódios podem ser revistos no site da CNN.

  • A vida e morte da Democracia, John Keane
  • The Humbling, Philip Roth
  • O Livro dos Prazeres Inúteis, Dan Kieran e Tom Hodgkinson
  • Um aprazível suicídio em grupo, Arto Paasilinna
  • Estado de Guerra (Filme)
  • Valerio Zurlini (Filmografia)
  • Blair, a Moral e o Poder, Bernardo Pires de Lima
  • Os Grandes Livros, Anthony O'Hear
  • Woody Allen (BD), Stuart Hample
  • Cranford (Série);
  • Uma História da Felicidade, Darrin McMahon
  • Israel, Martin Gilbert
  • O Livro dos Snobs, William M. Thackeray
  • Os contos das 4 Estações, Eric Rohmer
  • Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Jorge Reis-Sá e Rui Lage
  • Why There Almost Certainly Is a God, Keith Ward
  • Lei to me (Série)
  • An appeal to reason, Nigel Lawson
  • As Andanças de Cândido, Miguel Nogueira de Brito
  • Cultural Amnesia, Clive James
  • A origem das espécies, C. Darwin
  • Midsummer Night, Kate Royal (CD)
  • A Aristocracia e os seus críticos, Miguel Morgado
  • A estrutura das revoluções cientificas, T. S. Kuhn
  • 101 Monstros, Simon Sebag Montefiore
  • Silogismos da Amargura, Cioran
  • Os meus prémios, Thomas Bernhard
  • Blood and Rage, Michael Burleigh
  • Os Grandes Mestres da Estratégia, Ana Paula Garcês/Guilherme d' Oliveira Martins
  • Lugares donde se calma el dolor, C. A. Molina

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Voltar à casa de partida

Passaram 12 anos.

12 anos.

Muito?

Pouco?

A percepção do tempo tende a variar em função da nossa própria idade e do nosso próprio fim. Em princípio, escrevo na expectativa de que a convivência com esta ausência durará ainda alguns longos anos. Com o passar do tempo, os anos vão alargar-se, numa sequência onde cada dia que passa é um dai a mais de ausência numa vida que se queria mais longa, numa ausência que se queria mais curta.

Sem prejuízo de sabermos que o importante é aquilo que fica, constato que o que sucede a cada ano, quando o relógio percorre as horas entre as 00:00 e as 23:59 do dia 16 de Outubro, é quase sempre o mesmo; cada dia é 16 de Outubro é praticamente igual.

12 anos.

Dizem que o tempo apazigua, que o tempo consola, que o tempo perdoa, que o tempo redime.

Perdão.

O tempo, não.

O que fazemos com ele.

Se nos sentarmos a remoer a dor como quem roí uma maçã, dificilmente alcançaremos a paz. Apenas a nossa cova será maior, será como um poço cujo fundo vamos raivosamente aprofundando.

A cada 16 de Outubro – e não só; não só; nunca somente neste dia; nunca somente num dia; para quem ama e amou, a ausência nunca é sentida apenas um dia no ano – a 16 de Outubro retornamos à casa de partida.

À casa de partida.

À nossa casa de partida.

À casa onde começou a nossa pessoa, onde se guarda a nossa primeira memória.

E então dá-se um fenómeno extraordinário, onde tudo se conjuga de forma quase perfeita, onde o nosso subconsciente arruma os ficheiros da memória e cria  um trilho que começamos a percorrer como uma viagem.

O dia começa sempre da mesma maneira: como se eu estivesse deitado numa mesa de uma sala de autópsias, fria como o gelo, com o dedo do médico-legista surge colocado numa ferida aberta – e que pensávamos fechada - no nosso coração, escarafunchando, procurando saber em que zona dói mais ou se sente mais, como quem procura garantir que ainda sentimos alguma coisa.

E durante o processo recordamos imagens, recordamos momentos, recordamos cheiros, recordamos gestos e texturas – tudo enublado, como nos filmes; como naquelas películas de cinema que sempre críamos mentirosas, com jogos de luzes a fazer turvar as imagens e que, afinal, retratam fielmente o que se passa no recanto da memória que existe na nossa cabeça.

De novo voltamos a ser, por instantes, aqueles que foram pequenos e amados, aqueles que foram felizes, aqueles que asneiraram, aqueles que foram repreendidos, aqueles que tiveram conversas profundas e conversas fugazes, aqueles que riram e choram, que foram impertinentes, que interrogaram, que quiseram saber mais ou que ignoraram conselhos que o tempo brutalmente – sempre brutalmente – nos recorda nos momentos mais duros.

Durante instantes – instantes, porque na verdade são vários, tantas são as vezes que são interrompidos por um colega ou chefe que, automatizado, obedece à aceleração do nosso mundo sem pensar no resto - é a nossa vida que passa diante dos nossos olhos.

Os detalhes dessa vida parecem sempre escolhidos a dedo (será o mesmo dedo que há minutos me espicaçava o coração?) e têm sempre um elemento comum: a augusta personagem cuja ausência deste mundo Cristo decidiu datar de 16 de Outubro de 2011.

E recordamos momentos de presença e recordamos momentos de ausência: lugares onde estivemos ou onde não queríamos ter estado; e lugares onde não estivemos e gostaríamos de ter estado juntos, porque a ausência se fez para existir.

Voltamos à casa de partida.

E revivemos a nossa vida tendo por escopo um momento especialmente marcante, como esse fatal dia 16 de Outubro, que nunca termina e que nunca acabará, que se revive, completo, a cada evocação, mas que, como tudo, se aconchega na nossa vida, convivendo com o resto do que somos.

Voltamos à casa de partida.

Mas não podemos mudar nada no nosso caminho percorrido senão a nossa percepção.

E, para o bem e para o mal, ainda bem.

Quem seriamos nós se a cada instante pudéssemos mudar o passado, tomando decisões à luz do nosso presente?

E que seria do sabor da vida?

E que seria de ti, meu pai, e do amor que me tinhas e que te tenho?

Hoje, voltamos à casa de partida. E, felizmente, não mudamos nada.

Ainda bem.


Pormenor
© Arquivo MBM

© Arquivo MBM



terça-feira, 4 de abril de 2023

Recordo sempre o sorriso da minha mãe

 Há sempre um quê de estranho nestes dias.

Uma mescla de angustia com memórias desconexas, mas que nos remetem para um tempo que gostariamos que não fosse passado.

Num dia 8 de Fevereiro, na sala grande da Calaçada, o meu pai confessava-me que se sentia triste. 

Era o seu dia de anos. Dentro de poucos minutos começariam a chegar os convidados para jantar. 

Não aprofundei o tema. Achei que a hora não era de pensamentos solenes - como se só a tristeza fosse solene.. que ignorante sou! - e sem pensar muito, dei-lhe um abraço e, de forma banal e imediata, ripostei que era dia de festa e que não era tempo de tristezas. 

Muitas vezes recordo este momento. E arrependo-me por não ter perguntado o que entristecia o meu pai. Mas por vezes, há apenas uma saudade que nos aperta o coração e nos tolda a visão. Nesses momentos, apenas precisamos de um empurrão. 

A minha mãe, com quem mais tarde comentei o sucedido, sendo bastante mais pragmática, encolheu os ombros e perguntou-me "triste? porquê?". Disse-lhe que não sabia, que não aprofundei, que o convidei a enganar a memória e o coração porque era dia de festa. Ao que ela me respondeu "Não ligue. O seu pai que esteja sossegado, que hoje não é dia para tristezas."

Nos dias correntes, acho graça a esta resposta. Vislumbro nelas duas facetas: primeiro uma certa impaciência para com os bloqueios das tristezas e as lamentações; por outro uma preocupação comigo. 

Tenho quase por certo que a minha mãe, ao responder, me tinha mais em mente do que qualquer possível preocupação que ocupasse o meu pai. Não porque não gostasse dele ou não se preocupasse com ele. Muito pelo contrário, como testemunhei toda a vida. Mas porque não queria que eu me preocupasse.

A minha mãe era assim: tinha a maior ternura para com todos os homens da casa. Mas tinha um espírito muito prático e tinha uma capacidade grande de avançar. Tendo, tal como o meu pai, uma vida interior bastante profunda, estou convicto que ela não sofria com estes momentos. Tinha tristezas, tinha angústias, mas era raro vê-la lamentar-se de alguma coisa. Pelo contrário, é raro alguém tê-la visto chateada. Tinha sempre boa cara e uma boa disposição permanente. Como se sentisse o dever de estar sempre bem. Bem para si e bem para os outros. Os problemas, que todos temos, que teimam sempre em chegar, resolvem-se. Mas o segredo, esse, era não parar. Não se deixar tomar por tristezas e angústias. Porque elas são perigosas; porque elas podem tomar por completo uma pessoa e toldar-lhe a visão. 

E esta postura revela sabedoria e auto-controlo: não se trata de ignorar - isso sim, seria burrice - antes há que ter consciência que problemas, tristezas e angústias existem e têm que ser resolvidos; mas que eles são apenas um capitulo, um dossier, uma pasta no arquivo que é cada pessoa. Por isso, o melhor é aceitar a sua existência e não lhes mexer nem remexer muito, até se alcançar a solução para eles, precisamente para que eles nãos nos absorvam.

Recordo sempre o sorriso da minha mãe. 

E hoje, ao deitar a pequena Isabel que já dormia, dei-lhe um beijo da testa, chamei-lhe "meu amor pequenino que o pai adora" e acrescentei "e que tem muitas saudades da sua avó".


© Arquivo MBM


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Será assim que se explica aos pequenos que se foi amado?

Fiquei órfão cedo demais.

Haverá uma idade para se ficar órfão?

Não sei. Sinto apenas que fiquei órfão cedo demais.

Não se trata de apontar culpas à vida – seja lá o que isso for. Nem há nesta afirmação qualquer vitimização ou tentativa de desculpa.

Há apenas, a cada alto e baixo da estrada, um sentimento de impreparação, de solidão, de falta de amparo, de insegurança que permanece a espreitar-me sobre o ombro. E palavras por dizer, tantas palavras por dizer… e perguntas por fazer, tantas perguntas por fazer…

Talvez os meus irmãos sintam e pensem o mesmo, apesar da sua maior idade. Não sei….

Sei apenas que ainda hoje esse pensamento me rouba horas ao sono.

E que é também ao sono que vou buscar o tempo para rebuscar entre papeis o rosto daqueles que amei e que já partiram.

É que há em mim uma certa ansiedade de deixar escrito aquilo que foram.

Não por hagiografia (longe de mim!), que essas não são contas do meu rosário; antes são contas do purgatório de cada um e consta que O mais apto e competente se encontra por lá para julgar.

Há em mim, sim, uma certa vaidade, uma certa necessidade, uma incapacidade de calar o grito da alegria outrora experimentada e que que não quero que morra.

Não a quero esquecer nem a quero esquecida; quero-a conhecida para que não morra comigo.

E por isso repito sem recordar palavras exactas; por isso tenho por certo que o que agora digo já foi dito e ouvido como também o é agora no outro mundo para onde foram tantos e outros irão:

Gosto de si, pai.

Será assim que se explica aos pequenos que se foi amado?


© Arquivo MBM