Fiquei órfão cedo demais.
Haverá uma idade para se ficar órfão?
Não sei. Sinto apenas que fiquei órfão
cedo demais.
Não se trata de apontar culpas à vida
– seja lá o que isso for. Nem há nesta afirmação qualquer vitimização ou
tentativa de desculpa.
Há apenas, a cada alto e baixo da
estrada, um sentimento de impreparação, de solidão, de falta de amparo, de insegurança
que permanece a espreitar-me sobre o ombro. E palavras por dizer, tantas
palavras por dizer… e perguntas por fazer, tantas perguntas por fazer…
Talvez os meus irmãos sintam e
pensem o mesmo, apesar da sua maior idade. Não sei….
Sei apenas que ainda hoje esse
pensamento me rouba horas ao sono.
E que é também ao sono que vou
buscar o tempo para rebuscar entre papeis o rosto daqueles que amei e que já
partiram.
É que há em mim uma certa
ansiedade de deixar escrito aquilo que foram.
Não por hagiografia (longe de
mim!), que essas não são contas do meu rosário; antes são contas do purgatório
de cada um e consta que O mais apto e competente se encontra por lá para
julgar.
Há em mim, sim, uma certa
vaidade, uma certa necessidade, uma incapacidade de calar o grito da alegria
outrora experimentada e que que não quero que morra.
Não a quero esquecer nem a quero
esquecida; quero-a conhecida para que não morra comigo.
E por isso repito sem recordar
palavras exactas; por isso tenho por certo que o que agora digo já foi dito e
ouvido como também o é agora no outro mundo para onde foram tantos e outros
irão:
Gosto de si, pai.
Será assim que se explica aos
pequenos que se foi amado?
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